AS LÁGRIMAS DO REGATO
A Alberto de Oliveira.
Na abóbada sem sol da região dos fósseis,
o regato calcário os seus meandros dóceis
desenha pelo vário e tortuoso giro.
O feldspato irisado, o severo pórfiro
e os blocos colossais do escultural basalto,
banha, circunda e enflora, e vai de salto em salto,e vai de curva em curva, o báratro descendo,
do arbóreo cristal fluido os fios estendendo...
Um deles atravessa a gorja pétrea e ossuda
do elefante primevo, outro em lago se muda:este vai esmaltar os veios de piriti,
aquele em gotas cai da dura estalactite,
como o leite que flui de exuberante poma;
este outro de um repuxo a esparsa forma toma.
Mas todos vão descendo em ímpeto fremente,
porque descer é sempre a sorte da corrente.
E o regato viajor no abismo solitário,
depois de completar na terra seu fadário,
lembra-se, com saudade, o mísero e mesquinho!
do tempo em que tocava a roda de um moinho;em que ouvia da tarde as amorosas queixas,
dos salgueirais banhando as lúridas madeixas
e do sol refletindo o disco luminoso.
Quem lhe dera voltar a esse viver ditoso?
E no silêncio, então, das lágrimas supremas,
vai-se cristalizando em pérolas e gemas...
Augusto de Lima
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